Uma estrela cadente rasga o céu, a noite ilumina-se com um feixe de luz luminoso. O vento sopra numa brisa arrepiante transportando o fresco da vida num ritmo vagaroso, o ritmo intemporal do destino sem fim. As estrelas brilham lá em cima, no alto da sua imensa distância para a alma mundana e ordinária da raça humana. Um espelho de inexorabilidade, de sonhos destruídos por uma racionalidade diminuta, fruto de um romantismo que tudo apaga e tudo constrói, numa utopia rodopiante e esmagadora sobre a sua própria base fundamentadora. As estrelas observam, cativam, iluminam, constroem pensamentos, abalam sentimentos, matam certezas, pulsam um destino no seu pequeno ponto luminoso perdido entre tantos. Um romantismo isolado na sua própria ilha, um mar distante e invisível de racionalidade perdida pela força de um vento, um vento que simplesmente leva e se deixa levar para lugares recônditos, distantes, apenas e unicamente desconhecidos, o medo do mistério da novidade. Ciclos viciosos que não se apagam com os erros, apenas se adensam com cada gota de sofrimento, uma navalha afiada e gélida que raspa sobre a pele desenhando linhas tortas e desconexas, o caminho tortuoso de um amor romântico apenas alimentado por um vento apenas conhecido e visto pelo coração atingido pela adaga mortal. As estrelas continuam a brilhar, a noite passa lânguida com um sorriso cínico escondendo atrás do manto da escuridão vidas paralelas, caminhos impossíveis e atalhos incompreensíveis. A solidão revela um estado de alma, um estado de espírito necessário até uma nova descoberta aparecer, escondida pelo cobertor da noite.
Local de divagações de vária índole. Política, Filosofia, Economia, Religião, Música, Cinema, mera escrita pessoal. Um conjunto de impressões individuais ao sabor da inspiração do momento, apenas com uma preocupação: o politicamente incorrecto, sinal de sanidade mental. Der Hexenhammer - MALLEUS MALEFICARUM, Maleficas, & earum hæresim, ut phramea potentissima conterens
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domingo, 24 de maio de 2009
sábado, 23 de maio de 2009
Invenções nocturnas
Gracioso e glorioso,
Tudo como novo, como gosta o meu povo.
É preciso renascer para viver, sera misericordioso ou asqueroso?
Talvez um mundo de cão onde existe pouca acção
Ou muita omissão, depende da concepção.
Uma rima final, um término inicial
Pois que não faço outro igual.
Arrasto a minha existência
Com muita paciência e alguma insistência.
Porém sem tiques de resistência
Mas com meros lampejos de veemencia
Tudo como novo, como gosta o meu povo.
É preciso renascer para viver, sera misericordioso ou asqueroso?
Talvez um mundo de cão onde existe pouca acção
Ou muita omissão, depende da concepção.
Uma rima final, um término inicial
Pois que não faço outro igual.
Arrasto a minha existência
Com muita paciência e alguma insistência.
Porém sem tiques de resistência
Mas com meros lampejos de veemencia
2009-05-23
02h48
02h48
sábado, 16 de maio de 2009
Rascunho [3º volume]
Uma simples frecha de luz irrompia pelo ar escuro interior do espaço coberto pelo espesso manto de breu sem tréguas. O silêncio imperava num império sem sentido e duração temporal não coincidente com a esfera cronológica da espécie humana, apenas quebrado pela queda incessante de água. Num dos cantos pequenas gotícolas de água viajavam pelo interior da pedra fria para iniciarem um vôo mudo pela atmosfera interior até beijarem o chão. Uma queda cronológica, repetitiva, a mesma gotícola de líquido fresco junta com outras, formando uma orquestra ritmada. Um som agudo que marcava o passar dos segundos, o ritmo inexorável impossível de ser travado.
Um suspiro mais prolongado lançou o seu som acima do ruído ambiente. Os seus olhos abriram-se e fitaram o nada, espaço invisível onde a luz se escondia por detrás de uma espessa cortina negra. Tentou mexer os braços mas rapidamente se aperceberam da sua inamovibilidade, o som de correntes presas aos pulsos assinalou a sua presença. O olhar percorria o espaço confinado onde estava enclausurado, sentia-se suspenso no ar e com a barriga pesada. Da sua testa despontou uma gota de suor que iniciou a sua descida pela face até encontrar uma ferida aberta onde repousou. A sua cara deformou-se numa careta de dor e mais uma vez os seus músculos responderam, tentando-se libertar da prisão sem sucesso.
De repente os seus ouvidos captaram um som ruidoso de uma fechadura pesada a abrir-se lentamente. Com um forte e estridente ranger a pesada porta de ferro abriu-se introduzindo luminosidade dentro da escuridão. Num acto reflexo os seus olhos fecharam-se incapazes de aguentar com aquele impacto luminoso, apenas os seus ouvidos conseguiam acompanhar o fechar da porta com estrondo. Por momentos o silêncio voltou a reinar, apenas a sua respiração acelerada fazia-se ouvir. De repente o silêncio foi quebrado por dois passos que ecoaram, seguidos pelo iniciar de algo a ser arrastado. Era uma cadeira de madeira a ser puxada pelo espaço desconhecido, as suas pernas arrastavam-se lentamente pelo chão irregular de pedra negra. Ao mesmo tempo passos vagarosos ecoavam na pedra formando uma orquestra com as gotícolas de água. Dois sons agudos de mãos dadas numa sinfonia perfeita, um ritmo irrepreensível conduzido pela mão magistral do seu maestro de seu nome, medo. À medida que sentia a cadeira e os passos a aproximarem-se de si, a respiração tornava-se mais acelerada. O medo aflorava à sua pele, cada gotícola de suor não mais era do que meros panos de água fresca necessários para revitalizar o corpo para mais uma dose de sofrimento. Cada passo era uma passagem de uma faca afiada e fria rente ao seu espírito, cada nota musical perfeitamente combinada entre as gotas de água e aqueles pés tornavam-se um tormento para os seus ouvidos, um catalisador para a sua alma e corpo ferido.
Um suspiro mais prolongado lançou o seu som acima do ruído ambiente. Os seus olhos abriram-se e fitaram o nada, espaço invisível onde a luz se escondia por detrás de uma espessa cortina negra. Tentou mexer os braços mas rapidamente se aperceberam da sua inamovibilidade, o som de correntes presas aos pulsos assinalou a sua presença. O olhar percorria o espaço confinado onde estava enclausurado, sentia-se suspenso no ar e com a barriga pesada. Da sua testa despontou uma gota de suor que iniciou a sua descida pela face até encontrar uma ferida aberta onde repousou. A sua cara deformou-se numa careta de dor e mais uma vez os seus músculos responderam, tentando-se libertar da prisão sem sucesso.
De repente os seus ouvidos captaram um som ruidoso de uma fechadura pesada a abrir-se lentamente. Com um forte e estridente ranger a pesada porta de ferro abriu-se introduzindo luminosidade dentro da escuridão. Num acto reflexo os seus olhos fecharam-se incapazes de aguentar com aquele impacto luminoso, apenas os seus ouvidos conseguiam acompanhar o fechar da porta com estrondo. Por momentos o silêncio voltou a reinar, apenas a sua respiração acelerada fazia-se ouvir. De repente o silêncio foi quebrado por dois passos que ecoaram, seguidos pelo iniciar de algo a ser arrastado. Era uma cadeira de madeira a ser puxada pelo espaço desconhecido, as suas pernas arrastavam-se lentamente pelo chão irregular de pedra negra. Ao mesmo tempo passos vagarosos ecoavam na pedra formando uma orquestra com as gotícolas de água. Dois sons agudos de mãos dadas numa sinfonia perfeita, um ritmo irrepreensível conduzido pela mão magistral do seu maestro de seu nome, medo. À medida que sentia a cadeira e os passos a aproximarem-se de si, a respiração tornava-se mais acelerada. O medo aflorava à sua pele, cada gotícola de suor não mais era do que meros panos de água fresca necessários para revitalizar o corpo para mais uma dose de sofrimento. Cada passo era uma passagem de uma faca afiada e fria rente ao seu espírito, cada nota musical perfeitamente combinada entre as gotas de água e aqueles pés tornavam-se um tormento para os seus ouvidos, um catalisador para a sua alma e corpo ferido.
2009-05-16
03h57
03h57
sexta-feira, 10 de abril de 2009
The missing piece
"Could you fill the blanks in my history"... Buracos, feridas saradas, espaços vazios na memória do meu coração que precisam de ser novamente preenchidos... Uma incompleitude difícil de suportar, uma missing piece no puzzle interno que espelha a minha alma, um sofrimento contínuo à espera da tua decisão... Lágrimas correm escritas pelo punho sentimental interior, rasgando rios de sofrimento porque estás longe... demasiado longe... desenhadas por um sentimento ardente que arde baixinho, a necessitar do seu oxigénio indispensável... Um toque, um sorriso, um olhar, gestos e atitudes, um trabalho e um esforço contínuo no sentido de te convencer... De te fazer ver... Que o que sinto, não mais é do que um momento de sinceridade intemporal que resiste à dura erosão das saudades, resiste através da esperança e de um sonho que impele a chama que arde por ti... Um sentimento, uma espera, um "gosto muito de ti", o elemento essencial que és para completares o que, ainda, está incompleto...
2009-04-10
01h55
01h55
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Too far away
Estás muito longe.... demasiado longe.... A tua ausência arrepia-me e provoca-me angústias, a minha concentração deteriora-se ao ponto de apenas tu apareceres na minha mente... Os dias passam e tu nao voltas da tua ausência prolongada, noites passo acordado a pensar em ti, na falta que fazes, na necessidade de falar contigo e de estar contigo, o sofrimento de não poder fazer essas duas coisas... Onde estás tu, luz do meu coração? Ponto de equilíbrio para o meu desequilíbrio, chama adormecida há demasiado tempo dentro de mim que precisa de acordar... Olho para as estrelas à tua procura mas não te encontro, apenas pontos e mais pontos pequenos na sua imensidão e minúsculos na sua distância inalcançável. Tal como tu, estás inalcançável, demasiado longe para eu poder aguentar estas saudades... Preciso que voltes, preciso que retornes para o meu lado, preciso do elemento essencial que és para voltar a estar completo... As horas passam, os dias correm lânguidos na sua preguiça atroz e continuo sem ver o dia em que te posso novamente vislumbrar... Saudades que corroem por dentro, necessidades que percorrem as minhas veias, pensamentos que invariavelmente vão ter contigo, mesmo que continues longe.... demasiado longe para o meu coração...
terça-feira, 3 de março de 2009
Adormecimento
Um sono prolongado que atingiu o fogo que ardia, um sentimento que era vivo mas não correspondido. Uma luz, a única luz, que pode reavivar a chama e voltar a alimentar o fogo adormecido. Uma necessidade cada vez maior, uma espera que desespera, que faz doer o coração pela não concretização. Uma espera paciente apesar dos obstáculos que aparecem. Um regresso ao passado consciente, a necessidade intrínseca de reconhecer o que ficou adormecido tempo demais. Uma brisa fresca corre pela atmosfera, sussurra-me algo ao ouvido e eu adormeço tranquilo por saber que é mútuo. Mas o sono é perturbado por algo, as saudades daquele olhar, daquele sorriso, daquele toque há demasiado tempo escondido no passado. Um olhar teu, umas simples palavras tuas e o fogo que espera por ela reacende-se para prosperar. Um simples querer, uma simples vontade e a chama volta a ter a sua dona, aquela que desapareceu tempo demais. Uma luz que o coração necessita, um reacordar inevitável, o reconhecimento de um sentimento que nunca morreu. Basta querer, basta lutar e a dona voltará a ter o coração nas suas mãos. A luz sabe que é necessária e indispensável para o fogo reacordar mas o coração não percebe como é capaz de aguentar tanta espera... O fogo espera pela luz, como sempre esperou...
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Inédito [6ª parte]
A noite corria silenciosa no seu reino tranquilo, indiferente às almas humanas que vagueavam cobertas pelo seu manto escuro. A rua dormia imperturbável, três candeeiros irradiavam uma luz amarela que iluminava pedras da calçada e raros passos humanos. Um carro surgiu acompanhado pela forte luz branca dos seus faróis e as rodas assinalaram um piso de gravilha. Os travões chiaram levemente, o carro parou o seu movimento e o ruído proveniente das rodas na gravilha cessou. O motor permaneceu mais alguns segundos a roncar até ser desligado pela vontade humana. Nesse mesmo instante os faróis apagaram-se.
Ao fundo, no início da rua, passos sonoros abriam o seu caminho. Saltos altos anunciavam um andar feminino, calmo e decidido apesar das irregularidades da calçada. Ao primeiro candeeiro um cabelo longo, castanho e solto, revelou-se por instantes até ser escondido novamente pelo manto da noite. O passo feminino aumentava progressivamente o seu volume à medida que subia a rua, ao segundo candeeiro um nariz pequeno, olhos castanhos de tonalidade clara e uma face simples branca a cair para o moreno mostrou-se ao munto pequeno daquela rua. O passo continuava o seu caminho imperturbável e imune ao único transeunte que desafiou partilhar o mesmo passeio em contra-mão, e ao carro que permanecia incógnito no seu canto. Ao terceiro candeeiro, o que lançava uma luz mais forte e espaçosa, apareceu um vestido preto liso tapando até ao início do joelho e um decote aberto deixando à vontade aquilo que escondia. O passo feminino entrou novamente no escuro e o som que os saltos altos produziam na calçada eram ritmicos e o som mais nítido do que nunca. De repente o passo parou, uma mala desceu silenciosamente pelo braço nu e uma mão remexeu no seu interior. Passados alguns segundos um pequeno e insignificante molhe de chaves surgiu por detrás do manto da noite e tilintando acompanhando o movimento da mão e da mala a subir de novo o braço. A figura feminina do vestido debruçou-se e o molhe de chaves voltou a tilintar ao som da abertura da porta. Ela abriu-se e os passos femininos entraram no seu prédio.
As chaves roçaram na parede rude interior enquanto a mão procurava o interruptor da luz interna, que foi aberta assim que o botão foi encontrado. Os saltos altos voltaram a ecoar assim que as duas pernas simples e discretas subiram dois degraus e caminharam na direcção do elevador. As chaves voltaram a tilintar quando o dedo onde estavam anichadas subiu pelo ar e carregou no botão, chamando pelo elevador. O ascensor estava no último andar, curiosamente o seu, o que lhe dava largas dezenas de segundos à espera. Passou a mão direita pelo cabelo espalhando-o e levou os dedos à boca, mordendo a pele no canto das unhas num tique imparável. Com um pequeno som o elevador anunciou ter chegado ao rés-do-chão e a figura feminina abriu a porta e entrou. Desta vez as chaves não tilintaram , foi a mão direita que subiu até ao botão do seu andar. O ascensor começou o seu movimento ascendente, a mão esquerda divertia-se a remexer nas chaves enquanto o elevador não chegava ao seu destino final. Mais um pequeno sinal sonoro e a figura feminina voltava a abrir a porta do elevador. Os seus passos ecoaram no corredor branco e caminhou para a sua direita, na direcção da rua. A porta do seu apartamento foi aberta com um novo tilintar das chaves e a figura feminina fechou a porta calmamente atrás de si.
Dentro do seu apartamento estava escuro, apenas a luz dos candeeiros iluminava parcamente o seu interior. Deixou as chaves caírem dentro de um prato de vidro em cima de uma pequena mesa de madeira e pousou a pequena mala preta ao lado. Debruçou-se e com uma das mãos retirou um dos sapatos que deixou cair no chão. Tirou outro e também deixou-o cair. Pousou os dois pés finalmente livres no chão frio e soltou um longo suspiro de alívio. Caminhou pelo corredor de entrada e virou à sua esquerda, entrando dentro do seu quarto. A janela estava fechada mas os estores abertos deixavam que a luz artificial nocturna entrasse e iluminasse parte do seu quarto. Sentou-se à beira da cama vazia e solitária e massajou os seus pés doridos. Levantou-se e dirigiu-se para uma porta que estava à sua frente, abriu-a e os seus pés pisaram azulejos frios que lhe causaram arrepios momentâneos. Inclinou-se sobre a banheira e abriu a torneira de água quente enquanto se preocupava com que ela não escapasse. Saíu da casa de banho, deixando a porta aberta com o som da água ao fundo e caminhou pelo quarto. À sua frente estava uma aparelhagem, abriu a caixa de entrada dos cd's e colocou um, deixando-o como música ambiente. Despiu o vestido, deixando-o escorregar até ao chão. À luz dos candeeiros um soutien caiu no chão seguido por um fino fio dental. A figura feminina fechou os olhos e enrolou os dedos à volta do cabelo, apreciando o cd da Ministry of Sound. A luz artificial criada pelo homem deitava uma parca e fina luminosidade sobre uma figura feminina nua que caminhou pelo quarto até à casa de banho, fechando a porta atrás de si antes de abrir a luz.
Dentro do carro, depois do motor ter sido silenciado pela vontade humana, uma respiração calma e uns olhos negros fitavam a rua à sua frente. Os dedos da mão direita lançaram-se a um bolso interior e retiraram uma caixa de charutos. Deixou escorregar o charuto para fora do seu abrigo e levou-o à boca prendendo-o entre os lábios. Ao fundo um vulto feminino com um vestido preto liso subia a rua num passo cada vez mais audível. Pegou num isqueiro e lançou-se à tarefa de acender o charuto até o ter da maneira como gostava. Enquanto o fazia os seus olhos não largavam a figura feminina que subia a rua, parava, abria a porta e que entrava no seu prédio. O vulto dentro do carro deliciou-se com os primeiros bafos no seu charuto irrepreensivelmente aberto enquanto a figura feminina abria a luz do prédio e entrava no elevador. As dezenas de segundos passavam, o charuto era fumado lenta e deliciosamente e no alto do seu andar, a figura feminina despia-se e preparava-se para o seu banho. O vulto dentro do carro não conseguia ver mas sabia precisa e detalhadamente o que se passava por detrás daquela janela. Mais um minuto e uma luz acendeu-se na pequena janela da casa de banho. O vulto masculino encostou-se ao seu assento e permaneceu a fumar lentamente o seu charuto, enquanto olhava para a janela. Por entre os dedos da mão direita, escondida na plena escuridão, uma caneta desfilava e rodava no vôo silencioso.
Ao fundo, no início da rua, passos sonoros abriam o seu caminho. Saltos altos anunciavam um andar feminino, calmo e decidido apesar das irregularidades da calçada. Ao primeiro candeeiro um cabelo longo, castanho e solto, revelou-se por instantes até ser escondido novamente pelo manto da noite. O passo feminino aumentava progressivamente o seu volume à medida que subia a rua, ao segundo candeeiro um nariz pequeno, olhos castanhos de tonalidade clara e uma face simples branca a cair para o moreno mostrou-se ao munto pequeno daquela rua. O passo continuava o seu caminho imperturbável e imune ao único transeunte que desafiou partilhar o mesmo passeio em contra-mão, e ao carro que permanecia incógnito no seu canto. Ao terceiro candeeiro, o que lançava uma luz mais forte e espaçosa, apareceu um vestido preto liso tapando até ao início do joelho e um decote aberto deixando à vontade aquilo que escondia. O passo feminino entrou novamente no escuro e o som que os saltos altos produziam na calçada eram ritmicos e o som mais nítido do que nunca. De repente o passo parou, uma mala desceu silenciosamente pelo braço nu e uma mão remexeu no seu interior. Passados alguns segundos um pequeno e insignificante molhe de chaves surgiu por detrás do manto da noite e tilintando acompanhando o movimento da mão e da mala a subir de novo o braço. A figura feminina do vestido debruçou-se e o molhe de chaves voltou a tilintar ao som da abertura da porta. Ela abriu-se e os passos femininos entraram no seu prédio.
As chaves roçaram na parede rude interior enquanto a mão procurava o interruptor da luz interna, que foi aberta assim que o botão foi encontrado. Os saltos altos voltaram a ecoar assim que as duas pernas simples e discretas subiram dois degraus e caminharam na direcção do elevador. As chaves voltaram a tilintar quando o dedo onde estavam anichadas subiu pelo ar e carregou no botão, chamando pelo elevador. O ascensor estava no último andar, curiosamente o seu, o que lhe dava largas dezenas de segundos à espera. Passou a mão direita pelo cabelo espalhando-o e levou os dedos à boca, mordendo a pele no canto das unhas num tique imparável. Com um pequeno som o elevador anunciou ter chegado ao rés-do-chão e a figura feminina abriu a porta e entrou. Desta vez as chaves não tilintaram , foi a mão direita que subiu até ao botão do seu andar. O ascensor começou o seu movimento ascendente, a mão esquerda divertia-se a remexer nas chaves enquanto o elevador não chegava ao seu destino final. Mais um pequeno sinal sonoro e a figura feminina voltava a abrir a porta do elevador. Os seus passos ecoaram no corredor branco e caminhou para a sua direita, na direcção da rua. A porta do seu apartamento foi aberta com um novo tilintar das chaves e a figura feminina fechou a porta calmamente atrás de si.
Dentro do seu apartamento estava escuro, apenas a luz dos candeeiros iluminava parcamente o seu interior. Deixou as chaves caírem dentro de um prato de vidro em cima de uma pequena mesa de madeira e pousou a pequena mala preta ao lado. Debruçou-se e com uma das mãos retirou um dos sapatos que deixou cair no chão. Tirou outro e também deixou-o cair. Pousou os dois pés finalmente livres no chão frio e soltou um longo suspiro de alívio. Caminhou pelo corredor de entrada e virou à sua esquerda, entrando dentro do seu quarto. A janela estava fechada mas os estores abertos deixavam que a luz artificial nocturna entrasse e iluminasse parte do seu quarto. Sentou-se à beira da cama vazia e solitária e massajou os seus pés doridos. Levantou-se e dirigiu-se para uma porta que estava à sua frente, abriu-a e os seus pés pisaram azulejos frios que lhe causaram arrepios momentâneos. Inclinou-se sobre a banheira e abriu a torneira de água quente enquanto se preocupava com que ela não escapasse. Saíu da casa de banho, deixando a porta aberta com o som da água ao fundo e caminhou pelo quarto. À sua frente estava uma aparelhagem, abriu a caixa de entrada dos cd's e colocou um, deixando-o como música ambiente. Despiu o vestido, deixando-o escorregar até ao chão. À luz dos candeeiros um soutien caiu no chão seguido por um fino fio dental. A figura feminina fechou os olhos e enrolou os dedos à volta do cabelo, apreciando o cd da Ministry of Sound. A luz artificial criada pelo homem deitava uma parca e fina luminosidade sobre uma figura feminina nua que caminhou pelo quarto até à casa de banho, fechando a porta atrás de si antes de abrir a luz.
Dentro do carro, depois do motor ter sido silenciado pela vontade humana, uma respiração calma e uns olhos negros fitavam a rua à sua frente. Os dedos da mão direita lançaram-se a um bolso interior e retiraram uma caixa de charutos. Deixou escorregar o charuto para fora do seu abrigo e levou-o à boca prendendo-o entre os lábios. Ao fundo um vulto feminino com um vestido preto liso subia a rua num passo cada vez mais audível. Pegou num isqueiro e lançou-se à tarefa de acender o charuto até o ter da maneira como gostava. Enquanto o fazia os seus olhos não largavam a figura feminina que subia a rua, parava, abria a porta e que entrava no seu prédio. O vulto dentro do carro deliciou-se com os primeiros bafos no seu charuto irrepreensivelmente aberto enquanto a figura feminina abria a luz do prédio e entrava no elevador. As dezenas de segundos passavam, o charuto era fumado lenta e deliciosamente e no alto do seu andar, a figura feminina despia-se e preparava-se para o seu banho. O vulto dentro do carro não conseguia ver mas sabia precisa e detalhadamente o que se passava por detrás daquela janela. Mais um minuto e uma luz acendeu-se na pequena janela da casa de banho. O vulto masculino encostou-se ao seu assento e permaneceu a fumar lentamente o seu charuto, enquanto olhava para a janela. Por entre os dedos da mão direita, escondida na plena escuridão, uma caneta desfilava e rodava no vôo silencioso.
2009-02-11
01h48
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