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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sindicatos e greves: a história da falência de um País

Não importa discutir se os números de adesão à greve são esta ou aquela percentagem, discute-se o sexo dos anjos sem que haja algum resultado prático que consiga trazer soluções para os problemas do país. A greve, sendo um direito constitucionalmente garantido e protegido, é um mecanismo de defesa dos direitos dos trabalhadores que deve, acima de tudo, ser respeitado e nunca abolido. Não obstante a importância da sua existência, deve sempre ser discutido o seu mérito e a sua oportunidade no panoramana nacional. Atalhando caminho ao meu raciocíonio: sindicatos e greve geral, duas faces da história da falência de um modelo económico e social de um País, o nosso plantado à beira oceano. No fundo, a geração que fez o 25 de Abril, que devolveu a liberdade democrática a Portugal, é a mesma geração que defende, acerrimamente e utopicamente, os chamados "direitos adquiridos". Direitos esses defendidos como de "direitos divinos" se tratassem deixando nós, filhos e netos dessa geração, à espera que o Estado vá à falência porque não há dinheiro que suporte estas constantes violações ao nosso futuro.

Os tais "direitos adquiridos" nasceram num modelo económico e social de expansão, fruto da geração dos baby boom em que a pirâmide demográfica estava, como se espera que esteja, equilibrada em que a base é larga e o topo é fino, leia-se, taxa de fertilidade alta e envelhecimento ténue da população. Acoplado veio o emprego para toda a vida, um Estado Social omnipresente que tudo subsidia e tudo ajuda, em que as reformas são consistentes com os anos trabalhados em toda a vida, sendo uma correspondência quase perfeita. Este modelo viveu, cresceu e sobreviveu enquanto havia renovação de gerações, enquanto havia um forte crescimento económico que o alavancava. Mas, hoje em dia, esse modelo encontra-se esgotado. Os "direitos adquiridos" tornaram-se e são hoje um fardo financeiro quase insustentável que alimenta uma geração que, por mais mérito que tenha tido no derrube de um regime autoritário substituindo-o por um regime democrático mal-grado as falhas que apresenta, não consegue apresentar a humildade suficiente para reconhecer que as suas lutas são o matar do destino dos seus filhos e netos. Uma greve geral tem os seus efeitos circunscritos ao dia em que é fetia, com muita ou pouca adesão: os seus efeitos são limitadíssimos porque não resolve os problemas concretos da Nação. A massificação da greve como uma forma de combate generalizado mitiga os seus efeitos que são profícuos se feita de uma forma localizada, focando-se no combate dos problemas de dado sector. Não vai ser uma greve geral que vai melhorar as condições ou que propicia condições para discutir esse melhoramente: esta greve geral, os seus representantes máximos incorporados em actores políticos como Carvalho da Silva e João Proença, líder da CGTP e da UGT, respectivamente, apenas defende a manutenção do status quo que nos levou a esta situação, isto é, à manutenção do caduco e esgotado modelo económico e social que vigora hoje em dia em Portugal.

O dinheiro não cai do céu, mal-grado a actual CRP, por portas travessas, obrigar a que haja dinheiro para manter sistemas "tendencialmente gratuitos". Parece-me que vivemos num mundo que não tem correspondência com a realidade o que é, no limite, um insulto à inteligência da geração que hoje sai das universidades e que atravessa os primeiros anos no mercado de trabalho. Será assim tão difícil compreender aos líderes sindicais e aos líderes da dita Esquerda portuguesa que o actual modelo está esgotado? Que os seus pilares fundamentais estão erodidos e que já não funcionam no mundo de hoje? A piramide demográfica está invertida, a taxa de fertilidade está baixíssima, estamos longe do indíce ideal de 2,1 para renovação das gerações, não há crescimento económico suficiente que alimente um esquema de pirâmide da Dona Branca. Acrescente-se a isto os crónicos problemas financeiros que deixam o País à beira da falência financeira, ou seja, ter dinheiro suficiente para alimentar a ideologia que uma Constituição obriga a seguir, mas que não devia porque uma Constituição deve ser ideologicamente neutra. A defesa do modelo actual, a defesa dos "direitos adquiridos" tal como eles foram configurados, sem atender à especificidade dos problemas estruturais da economia portuguesa e sem, sequer, pensar que o mundo de 2010 é radicalmente diferente do mundo dos anos 60 do século passado; apenas e só, entre outras coisas, propicia a continuação deste estado de paz podre que não deixa que o País se liberte deste garrote apertado, desta "guerra geracional", arriscando a cometer uma heresia com esta expressão.

Sim, é verdade que o direito à greve deve ser respeitado, deve ser cumprido quando os trabalhadores sentem os seus direitos ameaçados. Mas, ao mesmo tempo, não será a defesa dos direitos dos trabalhadores, por si mesmo, uma forma perniciosa de manter o sistema vigente, quando está aos olhos vistos que está falido. Para conseguir equilíbrio, para dar mais esperança à minha geração, poderá ser preciso um retrocesso de dois passos, antes de se dar quatro em frente. É preciso perceber que o mundo está em constante mutação, que já não há emprego para a vida, que o esquema piramidal da Dona Branca que é o sistema actual de Segurança Social mais cedo ou mais tarde abre falência porque a pirâmide demográfica está ao contrário; é preciso perceber que a defesa das diatribes dos "direitos adquiridos", por mais que custe ouvir a quem os faz, é condenar a geração actual à pobreza irremediável. Os sindicatos de hoje e a Esquerda de hoje, nos moldes actuais, são os coveiros da nossa desgraça. Urge que ganhem consciência, que ganhem humildade, que pensem nos seus filhos e netos, perguntem-se a vocês próprios se o que estão a fazer é correcto. Daqui não se pode eximir de responsabilidades os partidos do lado direito do arco do poder, eles próprios têm a sua quota-parte de culpa por não terem agido quando deveriam tê-lo feito, por meros cálculos e tácticas politiqueiras serem politicamente correctos e não dizerem a verdade aos portugueses. Urge uma revolução tranquila de mentalidades, de sistema económico e social; urge que a actual geração se revolte e faça ouvir a sua voz, fazendo ver à geração que nos abriu as portas da Democracia que, eles próprios, estão a matar as conquistas que eles próprios conseguiram.

Snow Patrol - Open Your Eyes



Para relaxar e para uma despedida num "até amanhã"

Como a passagem do tempo faz maravilhas




Palavras para quê? O vídeo fala por si, em como a juventude é um tempo fantástico para se defender as posições mais incríveis, especialmente estando no meio de uma Revolução que rapidamente se transformou numa batalha ideológica. Ao menos, o tempo, neste caso em específico, "curou" o "mal" que havia dentro desta pessoa. Haja sempre esperança!

Renascer das cinzas e das trevas esquecido

"Local de divagações de vária índole. Política, Filosofia, Economia, Religião, Música, Cinema, mera escrita pessoal. Um conjunto de impressões individuais ao sabor da inspiração do momento, apenas com uma preocupação: o politicamente incorrecto, sinal de sanidade mental".

Com a citação do cabeçalho deste pequeno espaço de opinião pessoal, declara-se, pela segunda vez, renascido este espaço de partilha de pensamentos e divagações. Ao sabor do vento da inspiração, escritos e mais escritos irão aparecer por esta página sob a forma de reflexões, críticas, o que a escrita me der oportunidade de poder partilhar em gesto humilde de transmissão da minha total ignorância sobre o meu próprio conhecimento, intrínseco a uma qualquer espécie de sabedoria que mais não é do que a soma das partes da minha ignorância. Ou posto de forma mais simples: a minha sabedoria é uma pequena gota de água no meio do imenso oceano da minha ignorância.

Que o excesso de estudo no Mestrado não prejudique este espaço nem me mate o cérebro de inspiração literária. Que a inspiração nunca termine, pois a escrita é um repositório de esperança, desejos e, acima de tudo, tranquilidade de espírito. Um bem haja aos aventureiros e aventureiras que visitem este minúsculo espaço na blogoesfera e percam ligeiros instantes a ler o que este servo do estudo contínuo tenta transmitir em linhas de palavras mais simples do que as usadas nesta apresentação bacoca e sem sentido.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Retirado do baú das memórias

Um dos textos mais antigos revisitado...

Em Roma sê Romano

"Ele despertou do seu torpor, com um violento bafo de areia na cara. Esfregou os olhos e recuperou os seus sentidos. O Coliseu estava cheio, sem um único lugar vazio, ao seu lado um velho romano assistia extasiado ao espectáculo que decorria. Os seus olhos estavam esbugalhados de extâse, as suas feições contorciam-se à velocidade das hormonas humanas mais selvagens, um sorriso lunático cravava-se a cada segundo. Em baixo na arena, dois gladiadores lutavam contra a morte, degladiavam pela glória popular sedenta de sangue. O Coliseu fervilhava num barulho constante, o público vibrava a cada golpe, urros uivavam por cada gota de sangue espalhada pela arena escaldante. Um cheiro a suor, fedor de morte, de sangue coalhado vivo, vermelho na arena, invadia a atmosfera. O lado selvático cresceu quando um dos gladiadores cortou uma das mãos ao outro. O velho que se sentava ao seu lado levantou-se de rompão, erguendo os braços num grito louco de extâse, onde se lia o prazer da morte personalizada. A mão do gladiador estava empapada em sangue, repousada no chão, o gladiador cambaleava em redor dum pântano vermelho. Sentado do seu lugar, ouviu o barulho da multidão crescer sonoramente, gritava-se pela morte, exigia-se sangue e fedor putrefacto. O gladiador sem mão ajoelhou-se sem forças e foi então que ele o viu, o Imperador, na sua impecável túnica branca, a levantar-se e a estender o braço. Após uma leve hesitação, o polegar baixou, a multidão silenciou-se, esperando. Algo brilhante viajou pela atmosfera e uma cabeça rolou. O culminar da tempestade popular atingiu o seu limite, uma enorme onda de raiva alegre e regozijada encheu-lhe os ouvidos, a morte era celebrada. Ao seu lado, no momento em que a cabeça rolou lá em baixo na arena, o velho rugiu de extâse, os seus olhos bebiam o sangue espalhado em gotas e poças, a língua passou demoradamente pelos lábios, saboreando. O ritual cumpria-se e ele sabia que não lhe podia escapar."

sábado, 8 de maio de 2010

Rascunhos

O tédio instala-se, a depressão ameaça com um gesto mais arrogante, o tempo passa por uma simples fresta aberta tão estreita quanto a mais ruela das vielas e a escuridão assola a minha alma. Luzes apagadas, noite que se desenrola fora do meu tempo,vidas que teimam em passar para lá da janela. A iluminação citadina retira o esplendor do céu estrelado, deixando apenas a cruel nudez das vidas passadas, das vidas desfeitas, dos passos arrastados por pedras da calçada, arrastando consigo o arrastar de um tempo incógnito escondido por detrás do cobertor negro que cobre a sua pele negra de sujidade, deixando para trás de si apenas e só o esquecimento de si próprio, o esquecimento da própria sociedade sobre ela mesma, enrolada sobre a espiral de esquizofrenia que a amarra e a prende a um destino inevitável de condenação própria e tresloucada, fugindo de uma salvação tão perto mas, ao mesmo tempo, tão longe. Inaudita continuas tu no teu passo, passando por debaixo da minha janela, imune à escrita dedilhada da minha alma, sem saberes que a tua passagem marca pela sua fugacidade, pelo seu mistério, pela arrogância do som que expeles para o mundo exterior corporizado num salto alto que usas para fingir a tua baixa estatura, fazendo crer que és mais alta do que realmente não és. A tua única vivência das aparências por detrás dessa máscara fria de arrogância que usas para esconder a tua própria fragilidade de alma e coração, espartilhada por anos e mais anos de combates frenéticos e surdos, onde o estridente do sofrimento apenas se revela num grito assolapado de silêncio mas munido de uma faca que te trepassa o coração como se de mil lâminas fossem, empurradas pela força invisível do romantismo negro.

Chegas a casa, pensando que, encerrada no teu próprio mundo, te consegues livrar das amarguras que carregas silenciosamente dentro de ti. Procuras paz num copo de água, mas ele não é suficiente, é demasiado puro para a sujidade da tua alma. Então procuras algo mais pesado, um golo de vodka polaco barato, o qual engoles a seco e com um esgar de desprezo pessoal porque a última vez que o bebeste foi quando as mil lâminas se preparavam para te trespassar mais uma vez. Mas a bebida também não te serve, é barata e tu não és uma daquelas putas baratas que tudo faz por uma ninharia de dinheiro, vendendo a sua vergonha para ter uma honra pessoal esmagada pelo olhar de lado e enojado da sociedade materialista que mais fácil se preocupa com o novo verniz e a nova consola, do que para um humano em processo de decadência irreversível. Largas a bebida pesada e apenas te concentras em ti, no teu próprio processo destrutivo feminino. Ouves a casa inteira, grande o suficiente para uma família de seis, mas apenas suficiente para te esmagar ainda mais perante a tua insignificância solitária rodeada por aquele silêncio atroz que te faz cambalear o passo por caminhos que conheces melhor que a palma das tuas mãos. Não consegues aguentar mais, a roupa prende-te, tira-la para te sentires mais à vontade, para continuares a viver na tua própria ilusão de que bastam simples gestos tão rotineiros para apagar o cancro romântico que vive dentro de ti, consumindo-te a cada minuto, a cada dia, a cada semana em que te sentes a culpada por não conseguires ser aquilo que sempre achaste ser e sempre ouviste dizer seres.

Posso estar longe de ti, posso escrever sem te conhecer, mas os teus passos metem-me dentro da minha própria imaginação complicada, descrevendo-te sem te querer descrever, analisar-te sem querer analisar-te, ver-te sem querer observar-te, sentir-te sem querer que o sintas. Fechas a porta do teu quarto, corres as cortinas e apenas queres pensar em ti. Passeias pelo teu próprio quarto, pela tua própria jaula transformada em santuário momentâneo a todos os momentos infinitos, onde tentas expiar os teus pecados românticos junto da figura invisível do sofrimento, aquele ser coberto por uma capa negra e olhar negro que não teima em desaparecer mesmo nos momentos mais felizes. Os teus pés descalços passeiam o teu corpo magro e belo, tu és uma deusa grega com o teu olho azul de pérola e o teu sorriso de Citereia, mas o conhecimento da tua própria beleza esmagadora e irresistível torna-te na mais frágil das criaturas. Leste demais Camilo Castelo Branco, o teu ódio por ele apenas te transformou numa seguidora tão fiel do romantismo mais extremado que há naquelas linhas de repulsa por serem tão belas e tão mortíferas ao mesmo tempo. A tua dança invisível de salvamento nada mais é do que a última das tentativas de tentares aliviar o peso que te vai na alma, â ancora que te puxa teimosamente para o fundo do mar, empurrando-te continuamente para o abismo enquanto tentas lutar desesperadamente, nadando contra a inevitabilidade da queda. És um anjo, arrebatador, raro, diferente, mas a tua originalidade perde-se na choldra torpe esmagadoramente maioritária que domina a sociedade. Esmaga-te como se fosses um vírus ameaçador para o sistema instalado, não te poupando e rindo-se na tua cara ao ver-te, sofredora, a esvaíres-te num sangue romântico que te contamina como um veneno.

Sentas-te na cama, deitas-te na cama expondo a perfeição imperfeita do teu corpo, enterrando a tua cara na suavidade da roupa que cobre o teu leito de amor e de facas cortantes. Não consegues enfrentar o mundo, não consegues passar todo o dia a fingir que possuis uma força inabalável quando, na verdade, és apenas uma pena frágil que sobrevoa os céus e tão vulnerável à mais pequena brisa mais forte que te destrói em menos tempo do que aquele em que finges um orgasmo para dares a entender que ainda pensas sentir algo, não mais do que uma mentira pegada e sem sentido, a desculpa perfeita para manteres uma utopia, um castelo de cartas sem fundação, um pedaço de areia que te foge continuamente pelos dedos mas que tu não queres admitir no teu íntimo mais profundo. A noite passa, a vida passa, os minutos morrem e tu continuas igual, mas desta vez, dominada pelo sono e inconsciente para o mundo real. Já não ves o pobre que passeia pela tua rua apenas iluminada por um candeeiro fraco que tremelica de segundos em segundos, com medo de mostrar o degredo que o rodeia. És uma gota num oceano tremendo de indiferença, tentas-te proteger mas não consegues. O romantismo tornou-te numa fraca, quando pensavas que estavas mais forte. No fundo, tu sabes, mas não queres admitir porque fazê-lo é desmoronar por completo todo o teu mundo construído à volta de uma ideia que te fez viver até o ser que se senta ao teu lado e te faz festas invisíveis, se lembrou de te fazer companhia para todo o teu sempre. Sim, a tua beleza angelical matou-te

sábado, 24 de abril de 2010

Para um novo ciclo que se pretende profícuo

A complicação de um pensamento acaba por se tornar numa simplicidade atroz, a qual apenas pode ser reconduzida a um labirinto de ideias fugazes que se tornam, por si, uma estrada infinita de rectidão difícil de se entender porque o seu próprio entendimento foge às compreensões normais que se pretenda que seja a anormalidade de uma complicação que apenas e só é do que a mais singela das simplicidades labirínticas.

O grande problema não é definir de forma exacta o que será complicado, o complicado é conseguir definir o problema de uma complicação qualquer, que por mais complicada que seja de definir, não mais é do que a própria definição descomplicada, ao ponto de se tornar ela própria um problema que se remonta à própria definição de complicação