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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

The Road to Russia

26 de Dezembro, 18h20

Depois de um Natal, com os seus traços de distinção para outros passados e outros, quiçá, vindouros, o relógio da estação de comboios marca a hora inevitável. Quatro números que marcam um destino, uma escolha, uma responsabildiade, uma acção ditada por acções e omissões de uma viagem planeada com tempo, mas sempre com a sua incerteza pendente devido a um desconhecimento parcial de uma realidade que se pensa poder constatar e confirmar. Confirmação de ideias estereotipadas, de um qualquer país, de uma qualquer nação, que nem mais nem menos é a Mother Russia.

Um comboio com traços de vermelho e branco, uma subida dificil para o compartimento, degraus altos que fazem lembrar um camião TIR. Parado à porta, a segurar uma mala amarela pesada, os seus quase 13kg, vim a saber uns dias depois, com costas a suportar quase 4kg, devido a uma coisinha rectangular preta que uns chamam de "laptop", outros apenas de "portátil". Três revisores, dois homens e uma mulher, inglês mal trocado e bilhetes deixados com eles. Percorremos a carruagem da primeira classe, mais umas quantas dezenas de euros para um compartimento privado com camas e nenhum espaço de movimento interior. Passamos a carruagem-restaurante, a sensação de um conforto não luxuoso mas medianamente simpático e acolhedor. Chegamos à nossa carruagem, 176 Litas para ver um lar de idosos junto à porta e um conjunto de pessoas que partilham camas com mais espaço de movimentação interior que a primeira classe, mas condições dignas de uma terceira classe de um país do quarto mundo.

Quatro camas vermelhas, sem espaço para um homem de 1,73, duas recolhidas para dar espaço à pessoa de baixo se sentar sem pensar se bate com a cabeça na cama de cima; perto da janela, do outro lado de um corredor mais magro que uma rapariga anorética, dois aparentes assentos que se transformam em duas camas, uma superior e outra inferior. A viagem começa sem sobressaltos dignos de registo, apenas os que acontecem devido à trepidação do comboio. Uma conversa aqui, uma conversa acolá, um vídeo feito, promessas de fotos a tirar ao lar de idosos; um revisor que nos entrega um pequeno papel branco, primeiro sinal das burocracias da fronteira. Música começa a passar, espantados ficamos, conhecemos aquelas músicas pois parece que estamos num comboio, dito, ocidental com uma rádio, diga-se de passagem, ocidental. Partimos de noite, a noite irá ser a nossa fiel companheira, apesar da luz que invade a carruagem. Sento-me no meu banco, aprender russo parece ser um quebra-cabeças pior que o cubo de Rubik. Afinal, aquilo parece-se mesmo com o antigo alfabeto grego, mas pelos vistos lembraram-se de o adoptar de forma um pouco estranha. Admirado? Nem por isso, foram dois padres que o fizeram...

A noite corre silenciosa, o comboio desfila barulhento, a vida na carruagem começa a transformar-se lentamente. As primeiras camas são abertas, ao fundo o lar de idosos continua a falar alegremente e descobrimos o primeiro esquema soviético para nos tramar. Uma mulher olha continuamente para nós, silenciosa, olhos pequenos, abertos, sempre atenta. "KGB is still watching you", reza uma das inúmeras t-shirt's que se pode comprar em Moscovo. Às vezes é mesmo para ficar a pensar se não será verdade... Algumas paragens pelo meio, a carruagem começa a encher e os misteriosos acompanhantes começam a surgir. Uma velhinha muito simpática senta-se ao meu lado, rapidamente percebe que não percebo pévia de lituano, mas isso não a impede de estar sempre sorridente. O tempo passa, a noite desfila e a viagem parece que nunca mais termina. Letónia já está a ser deixada para trás, mais hora menos hora a fronteira chegará, e o terreno começa a ficar cada vez mais estranho.

Ida à carruagem onde supostamente se pode comer. Tenta-se treinar pela primeira vez o russo, tiro sai ao lado, fica patente a parvoíce da tentativa condenada ao fracasso desde o momento em que nem sequer se pensava em tentar. Uma boa conversa, boa companhia à frente, a empregada chega e diz que está quase a fechar. A dúvida instala-se, novamente coisas estranhas a acontecer, apenas se sabe que existe um papel à porta que diz que fecha às 00h e apenas eram 22h quase a bater as 23h. Outro aviso: devemos ir para o nosso lugar da carruagem. Olhamos pela janela, de facto o comboio está a parar aos poucos, mas nada indica fronteira passada. Finalmente o comboio pára e em menos de segundos contados nas suas várias dezenas, homens fardados começam a aparecer. Com apenas tempo para comer algo de forma rápida, recambiados somos para a nossa carruagem. O controlo fronteiriço letão entrou em força, vê passaportes, olhar arrogante e assustador, um dos homens carrega a tira-colo um notebook engraçado que apenas tem o monitor ligado porque tocar nele, até é mentira.

O comboio recomeça a marcha, a fronteira apenas está a... quiçá, uma hora de distância. Porque sim, são "apenas" 15 horas de comboio para percorrer quase 900km. Faz sentido? Nem tudo tem que fazer sentido, para quê? Não vale a pena, isto é bem mais interessante quando a maior parte das coisas não fazem sentido... Comboio pára, eis a fronteira. Primeiro contacto com as autoridades fronteiriças russas, do outro lado da janela apenas se consegue ver, no meio da escuridão cortada pelos candeeiros normais de uma estação soviética, portanto, poucos candeeiros, uns casebres amarelos. Dentro do comboio surgem caras fechadas, fitando-nos com um olhar inquisidor(especialmente a olhar para a foto do passaporte e depois para a cara da pessoa em questão... então se tiver algum sinal, ui ui...) e autoridade para meter medo. Levam os passaportes numa caixa de madeira e eis que surge mais uma razão para serem 15 horas. Espera-se, espera-se, pela devolução do passaporte e rezando para que nada estivesse mal ao ponto de sermos levados para alguma daquelas casinhas. Dezenas de minutos depois surgem os passaportes, um carimbo laranja ténue na folha número 2, e o nome da cidade - Pitalovo ou Пыталовский.

Parte mais interessante da viagem: acaba a fronteira, toca a dormitar. Horas assim se passam, apenas uma linha basta aqui. Aproximação a São Petersburgo, amanhece e a viagem interminável parece terminar. Pelo meio, a primeira visão da Rússia Interior, uma imensidão de planícies e planaltos, cobertos de branco e com parca população. Eis São Petersburgo, uma estação de comboios quaisquer. Toca a sair, toca a pisar solo russo, toca a tirar as primeiras fotos.

Eis a Rússia... ou melhor... Россия-матушка

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Qualquer coisa escrita no meio do Erasmus

"Sliar ficou sozinho mordiscando a peça de fruta e deliciando-se com o seu sabor doce. À sua volta mas e mais pessoas aproximavam-se da mesa, bebericando e petiscando sabores vários. Rapidamente o desconhecido perdeu-se no meio de tanto indivíduo conhecido, que cumprimentava os seus amigos com um sorriso ou com um abraço. Largou a peça de fruta e a comida, e lançou-se à descoberta. Sob a forte luz diurna, Sliar começou a distrair-se com os vários relevos das paredes laterais. Era incapaz de parar por momentos neste ou naquele desenho, todas elas o atraíam. Esculpidas numa talha dourada impenetrável à erosão, brilhava intensamente sob aquela intensa luz lançada pelo astro solar. Figuras de donzelas solitárias olhando para o vazio do infinito, rostos suaves transmitindo uma calma antiga, rostos desfigurados em expressões de surpresa ou desafio ou simples desenhos cravados na parede com cenas de casamentos ou festas. Apenas e só figuras femininas, numa homenagem permanente aos colos que perpetuaram gerações e histórias lendárias, causas de desastres amorosos e guerras prolongadas. A perdição do homem encluasurada em tantos desenhos dourados, gritando num alto som silencioso a beleza que caminhou por aqueles corredores, a mesma beleza que tentava fingir o grito de morte dilacerante e lento de um povo e de um reino."

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Uma viagem sem sentido fotografada
















Uma viagem... digamos... Sem sentido

04-10-2009... Decidimos alugar um carro e meter-nos à aventura, conduzidos pela responsabilidade do figurante que mal aparece nos vídeos mas que está sempre lá atrás a rir-se e a mandar bocas, de seu nome, Rui Serra. Citroen C1, fetched in a rent-a-car near the Vilnius Oro Uostas(belo momento de poliglota...inglês + lituano), sem rádio porque é da gama baixa, mas um carrinho de choques a conduzir. Assim diz o nosso condutor que se mostrou maravilhado durante todo o percurso. Saímos do stand de rent-a-car, a minha carteira está a arder porque acabei de deixar 1000LT como um depósito de fiança para o caso de deixarmos, nem que seja, um simples arranhão no carro vermelho. By the way, 1000LT são qualquer coisa como 340€...

Largamos o aeroporto, o escritor já leva a promessa de ter as primeiras aulas numa qualquer estrada isolada com aquele carrinho, e vamos à procura de uma estação de gasolina. Chegados à estação de gasolina, o condutor concentra-se em inserir o líquido dentro do estômago do carro, para que não morra de sede durante o caminho, e o escritor deste post começa a fazer contas poque lá tem que ser o banco financiador da expedição. O escritor sai do carro, caminha uns quantos passos em alcatrão, e lá entra na área de serviço. Objectivo é comprar um mapa que nos diga a direcção para Kaunas e depois para Suwalki.

Saímos da estação e iniciamos a marcha rumo ao desconhecido. Uma voz sobressai-se no meio do silêncio geral: "Epa vocês têm que me ajudar. Não há rádio, por favor ajudem-me, sejam solidários e não adormeçam porque isso depois dá-me vontade também de dormir". Sábias palavras de condutor que o terceiro membro, aquele que não faz nada, sabiamente cumpre pois nos minutos seguintes cai a dormir nos bancos de trás. Sobra o escritor deste post que tem que fingir perceber alguma coisa de co-pilotagem, para tentar ser um mediano co-piloto. Para isso, lá é preciso desdobrar o grande mapa, pegar numa caneta e começar a fazer uns rabiscos numas supostas auto-estradas. As horas decorrem, Kaunas há de aparecer algures no horizonte, e decidimos fazer uma paragem a meio, numa estação de serviço aberto das 9h às 21h(informação interessante? acho que não...). Tudo parecia concorrer para estarmos perante uma estação de serviço tão igual quanto as outras, mas parecia... Porque a um canto, no meio da vegetação, se encontram dois cubículos a que pomposamente lhe dão os nomes de casas-de-banho mas que, afinal, são duas coisas de madeira que têm um buraco interior cavado na pedra, sem uma sanita.

Continuamos caminho, lá vimos Kaunas ao fundo. Viramos à direita na primeira saída? Não, o co-piloto engana-se e continuam em frente. Problema? Não, qual quê, como sabiamente diz o condutor: "Não há problema, há sempre uma segunda saída". Confirma-se, há sempre uma segunda saída... Kaunas, a segunda maior cidade da Lituânia, mas tão pequena que ela se mostra ao mundo. Parece uma criança ao pé de outras cidades, ainda tão nova e ingénua no seu crescimento. Chegamos num Domingo ao final da manhã, céu carregado de nuvens a anunciar a ameaça de precipitação e uns pingos que timmidamente se mostram e gritam presente. Segunda maior cidade, certo? Mas vazia, praticamente ninguém nas ruas, parece uma cidade deserta. O dorminhoco dos bancos de trás lembra-se sabiamente, de palavras sábias do prof dele de Direito Penal: "Kaunas é a cidade mais perigosa de toda a Lituânia.". Aviso feito, vamos lá tentar não nos esquecer disso. Cidade engraçada, do mesmo estilo de Vilnius, um centro pequeno e acolhedor. Uma boa catedral para começo de visita, uma boa fachada do museu militar e bons monumentos sobre o período soviético.

Seguimos viagem, para a parte mais imaginativa da viagem... Umas quantas e valentes semanas antes, na viagem de comboio de Varsóvia e Vilnius, um polaco simpático fez as vezes de quarto companheiro de viagem e bons tempos passámos com ele a conversar. O homem, já com a sua idade quarentona, mora numa cidade fronteiriça polaca de seu nome, Suwalki. E lá fomos nós completamente à aventura, curiosos para conhecer a cidade do nosso companheiro de viagem polaco. A travessia da fronteira foi calma e bastante barulhenta. Não é todos os dias que temos um condutor ao nosso lado que se vangloria por passar uma fronteira de carro...

Suwalki... Primeira visão: o logo do LIDL. Nem mais, o LIDL numa cidade fronteiriça da Polónia. O que veio a seguir? Um McDonalds com McDrive, onde, numa péssima mas péssima imitação nem tentada de Remy Gaillard, o condutor e o dorminhoco dos bancos de trás pedem dois McFlurry's a uma empregada polaca que não conhece o conceito de simpatia. Vale-lhe o bom inglês... Suwalki, cidade ainda mais pequena que Kaunas, em tamanho e em interesse para visitar. Tudo se resume a uma igreja, a um bonito jardim em forma de quadrado; voltas e voltas de carro para tentarmos descobrir o centro da cidade e apenas o descobrimos quando encontrámos a Igreja, com uma estátua de Karel Woyjtila(ou lá como se escreve) de lado, e o tal jardim bonito; e nada mais, apenas isto que Suwalki tem para oferecer. Ah e o estabelecimento comercial do LIDL e o McDonald's.

Final da viagem... O escritor deste post já consegue colocar a primeira e a segunda mudança num Citroen C1. O dorminhoco dos bancos de trás, continuou a ser dorminhoco durante a viagem de volta, feita durante a noite. Viagem de volta essa em que o condutor, com a sua destreza, consegue com que um carro que apenas dá 152km/h no máximo, conseguiu que chegasse aos 160km/h. Nesses instantes, o escritor deste post já dormitava uns quantos minutos, sinal de que a frase sábia do condutor, dita logo no início da viagem, foi seguida com toda a pompa e circunstância.